segunda-feira, 27 de maio de 2024

Justiça; o insumo básico



“Vi mais debaixo do sol, que no lugar do juízo havia impiedade, no lugar da justiça, impiedade ainda.” Ecl 3;16

Normalmente temos a piedade como mero sentimento religioso, útil para quando orarmos, buscarmos a Deus. A justiça seria um aferidor necessário nas relações interpessoais, nos contratos cotidianos, sem um vínculo direto com a vida espiritual; será?

Paulo apresentou a piedade como útil nessa vida e no porvir: “... exercita a ti mesmo em piedade; porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente, e da que há de vir.” I Tim 4;7 e 8 Qual seria o aspecto mais visível da piedade, na vida presente?

Mais que nos exercitarmos espiritualmente oferecendo cultos ao Eterno, estamos numa escola, onde nossos valores são alinhados aos dos Céus, aprendendo a prática da justiça, antes de levantarmos as mãos ao Criador. A Palavra Dele requer: “Quero, pois, que os homens orem em todo o lugar, levantando mãos santas, sem ira nem contenda.” I Tim 2;8 Sem injustiças, podemos acrescentar, sem receio.

A Palavra da Vida nos foi dada, não para ensinar trejeitos de religiosidade; antes, para forjar vidas probas, diante Daquele que ama à justiça. “Com minha alma te desejei de noite, com meu espírito que está dentro de mim, madrugarei a buscar-te; porque, havendo Teus Juízos na terra, os moradores do mundo aprendem justiça.” Is 26;9

Se, subestimamos a regeneração dos nossos caracteres em Deus, e ainda assim pretendemos frequentar à Casa Dele, onde Sua Palavra é ensinada, ignoramos Seu objetivo, restaurar-nos; então, fazemos do culto um fim em si mesmo. Como se, pudéssemos viver nosso dia a dia às nossas maneiras, segundo nossos valores, desde que, reservássemos um tiquinho do nosso tempo, num teatrinho religioso para "agradar" a Deus.

Em dias antigos, já se tentou essa farsa. Pomposos cultos, louvores, sacrifícios; lá fora, cada um segundo sua impiedade. O Eterno protestou: “Odeio, desprezo vossas festas; vossas assembleias solenes não me exalarão bom cheiro. Ainda que Me ofereçais holocaustos, ofertas de alimentos, não Me agradarei delas; nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais gordos. Afasta de Mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas violas. Corra, porém, o juízo como as águas, a justiça como ribeiro impetuoso.” Am 5;21 a 24

O que desqualificava aos cultos não eram sacrifícios, insuficientes, louvores desafinados, pregações imperfeitas; antes, a ausência de juízo, de justiça no modo de vida dos “devotos” de então.

Se, pois, alguém trata o aspecto espiritual da vida como mero apêndice, algo mais, que, se não fizer bem, mal não fará, ainda não entendeu nada; está invertendo prioridades, usando pedra preciosa na funda. Cristo ensina: “Mas, buscai primeiro o Reino de Deus, e sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” Mat 6;33

A Palavra não mostra Deus olhando para a terra esperando encontrar cânticos espirituais, mãos levantadas ou, futilidades simulares; antes, olhou demandando por quem O buscasse para se santificar, aprender a praticar o que Ele deseja. “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, nem sequer um.” Sal 53;2 e 3

Mesmo O Eterno tendo desprezado as “honrarias” da boca pra fora, mediante Isaías; reiterado isso através do Salvador, muitos ainda não entenderam as coisas. Disse: “... Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-Me com os lábios, mas seu coração está longe de Mim;” Mc 7;6

Basta que frequentemos alguns cultos, e o que mais ouviremos será: “Glória a Deus!” É errado? Não. A Ele toda glória. O problema é quando pensamos que são nossos lábios apenas, que O devem glorificar, divorciados das ações. “Resplandeça vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem ao vosso Pai, que está nos Céus.” Mat 5;16

Não que O Santo despreze sentimentos, lhe bastem as ações. São os sentimentos corretos que patrocinam as ações corretas diante Dele. Do Salvador está dito: “Tu amas a justiça e odeias a impiedade; por isso Deus, O Teu Deus, Te ungiu com óleo de alegria mais do que a Teus companheiros.” Sal 45;7 Seu amor e Seu ódio agradaram a Deus; por estarem, ambos, nos lugares certos.

Porque Deus anseia por justiça mais que louvores, nossa grande dependência de Cristo; submissos a Ele, Sua justiça é imputada a nós, invés dos nossos pecados; “Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação.” II Cor 5;19

domingo, 26 de maio de 2024

Aparente mente


“Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são caminhos da morte.” Prov 14;12

Que as aparências enganam é proverbial. De que é feita a hipocrisia, senão, da aparência da virtude usurpada por quem vive no vício? Entretanto, as culpas pelo engano nem sempre estão plenamente na conta das coisas visíveis.

“Os olhos e ouvidos são más testemunhas, quando a alma não presta”. Heráclito

Para o antigo pensador, havia uma inclinação nas almas que “entortava” a leitura dos fenômenos, mais que, a forma, como se apresentavam. Além do que vemos, o que ouvimos também pode ser “filtrado”, de modo a se adequar mais às preferências, que, à realidade.

A alma inocente de Eva, passou a “não prestar” quando, deixando a Palavra de Deus, começou a ver como boa, a sugestão da oposição, para que desobedecesse à vontade do Criador.

Afastando-se dessa, em direção ao conselho da serpente, até as “aparências mudaram”; “Viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, agradável aos olhos, árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, comeu e deu também ao seu marido; ele comeu com ela.” Gn 3;6

“... desejável...”
aquilo que traria morte, conquistara um espaço na alma da mulher, de modo a gerar um filho, o desejo. A maioria dos nossos pecados viçam daí; quando esse rebento chora por mamar. Nossa alma carece ser entortada primeiro, para que suas percepções também entortem. Assim, me seja lícita a conclusão que, as aparências são assessórias do engano, não, a causa necessária.

Justo por ter abandonado a dependência de Deus, que a queda fez nossa dependência ainda maior. Agora, pela morte espiritual, o homem natural se torna vítima das aparências. “... Não atentes para sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque O Senhor não vê como o homem; pois, o homem vê o que está diante dos olhos, porém O Senhor olha para o coração.” I Sam 16;7

Quando os gibeonitas, temendo o avanço de Josué com seu exército, foram a ele propor um pacto, se dizendo peregrinos de largas distâncias, levaram como “prova” das suas falas, vestes rotas e pão bolorento. A causa pela qual queriam um pacto invés de lutar, era o medo; os assessórios usados para convencer ao general, foram falas astutas e trastes que “confirmavam” às falas.

O erro de Josué foi aceitar as coisas como se apresentaram, sem consultar a quem pode ver a verdade. “Então os homens de Israel tomaram da provisão deles e não pediram conselho ao Senhor.” Js 9;14

Suas almas autônomas foram culpadas do triunfo do engano. Por isso, o conselho: “Confia no Senhor de todo o teu coração, não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, Ele endireitará tuas veredas. Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal.” Prov 3;5 a 7

Os desejos do homem caído são consortes do engano; alguém, pretendendo ser irônico, foi filósofo ao dizer: “Me engana, que eu gosto.”

Em muitos casos, aparências revelam, mais do que enganam. Certas obviedades não podem ser outra coisa, senão, o que deixam ver. Pessoas exalando sensualidade no vestir, tomando púlpitos por aí, pretendendo-se, expoentes espirituais. Quem coloca a carne em relevo, não pode, ao mesmo tempo, realçar o espírito. “... Andai em Espírito, não cumprireis a concupiscência da carne.” Gál 5;16

Lembra uma anedota que escutei outrora. Um gaúcho caminhoneiro foi interpelado por um baiano, acerca do que ele transportava; “Que levas em teu possante, gaúcho? – uma carga de suínos tchê!” O baiano foi conferir de perto: “Suíno é? Ôxe! Bicho danado de parecido com porco!”

Sempre que restarem dúvidas entre o que vemos e ouvimos, por que não consultarmos a Deus? A cereja na torta da serpente, plantadora do engano na humanidade, será fazer seu títere parecer Divino, mediante o engano. O Anticristo virá, “... com todo o poder, sinais e prodígios de mentira, com todo engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvar.” II Tess 2;9 e 10

Como vemos, a verdade, mais que no testemunho sensorial, tem seu assento no coração; deve ser amada, para que sejamos livres do engano.
Enfim, mesmo que os caminhos nos pareçam direitos, antes de palmilharmos neles, consultemos Àquele que sabe o fim, aonde eles nos levam.

Quando inquirido acerca dos sinais do fim, e da Sua volta, a primeira coisa que O Salvador advertiu foi: “Vede que ninguém vos engane.”

“Exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado;” Heb 3;13

Odres velhos


“Ninguém deita vinho novo em odres velhos; doutra sorte, o vinho novo rompe os odres e entorna-se o vinho, os odres estragam-se; o vinho novo deve ser deitado em odres novos.” Mc 2;22

O desejo por novidades palpita na alma, humana, como registrou Lucas: “Pois todos os atenienses e estrangeiros residentes, de nenhuma outra coisa se ocupavam, senão, de dizer e ouvir alguma novidade.” Atos 17;21

A mensagem de salvação, é chamada de boas novas, Evangelho, em grego, malgrado, seja de conhecimento comum. Nada demais, pois, termos ouvidos para algo novo, quando surgir.

Acontece que pipocam na praça tantas “novidades” teológicas, que, como o pão dos gibeonitas, exibem o bolor dos muitos dias. A velha inclinação à desobediência, tentando etiquetar como sem uso, às peças do seu brechó.

Fontes espúrias, de gente avessa ao cumprimento da Palavra de Deus, que, tenta cooptar quem lhes ouvir, para que se torne também, desobediente consigo. Quiçá, seguidor de uma “nova visão”.

O mestre em preterismo “descobre” que Cristo não voltará, pois, “já veio” no ano 70; o especialista em grego, “desvenda” a Marca da Besta, de modo sui generis; o versado em gematria “revela” quem será o títere do capiroto; o expert em exegese ensina que é errado construirmos locais para congregar, uma vez que somos os “Templos de Deus”; o “catedrático” em hermenêutica, esposa que o dízimo era coisa restrita ao Antigo testamento, não está em vigor; outros ousam inda mais: Revelam a “esposa de Cristo” que a Igreja teria escondido por dois mil anos; sem falar, nos muitos “segredos” do Livro de Enoque, que os conhecedores fazem questão de contar, pra que, enfim, saibamos a verdade.

Quem se recusa escavar para a fundação de um prédio que deve fazer, gasta seu tempo e latim, discutindo as cores que o mesmo deverá ser pintado. Digo, os avessos ao básico, à conversão, se pretendem mestres de escatologia, luzeiros tardios dos desinformados, “Indianas Jones Teológicos” caçadores da verdade perdida, nos recônditos de algum limbo histórico... Francamente!!

Odres velhos estragando o vinho novo. O Mestre ensinou que Sua Doutrina carecia de vasos novos; “... Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus... aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar...” Jo 3;3 e 5

Assim, temos dois aspectos que eliminam aos “repórteres de novidades”: Quem não nasceu de novo não pode entrar no Reino, nem ver na dimensão espiritual; e quem foi regenerado em Cristo, tem um testemunho íntimo, que prescinde de tesouros arqueológicos, achados teológicos, contorcionismos linguísticos, escatológicos...

“O mesmo Espírito (Santo) testifica com nosso espírito que somos filhos de Deus.” Rom 8;16

Em paz com esse testemunho, estamos abertos a quaisquer descobertas, seguros que, essas confirmarão à Palavra de Vida, invés de contrariar. Sabemos em Quem temos crido.

Deus não deixou nada, necessário, oculto nalguma profundeza, onde só um “eleito” especial pudesse encontrar; antes, “... Seu Divino Poder nos deu tudo que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento Daquele que nos chamou pela Sua Glória e Virtude;” II Ped 1;3

Portanto, ainda que não sejamos refratários a nenhuma descoberta, não carecemos de uma “nova doutrina”, de uma justificativa “bíblica” para que possamos desobedecer, ou coisas assim.

Por que ninguém poderia descobrir algo que demonstrasse os erros da Bíblia? Porque os milhares de pessoas transformados por ela, seriam vigorosa testemunha em favor da sua veracidade. Além do testemunho em nosso espírito, já referido.

Cada um que aceitou o desafio do Salvador, sabe de qual fonte bebe; “... A Minha Doutrina não é Minha, mas Daquele que Me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade Dele, pela mesma doutrina conhecerá se é de Deus, ou se falo de Mim mesmo.” Jo 7;16 e 17 a prática da Palavra com seu “encaixe” pacífico e sábio, em todas as vicissitudes da vida, testemunha também.

O que Deus tem contra novidades? Nada. Ele nos desafia a abraçarmos às tais. “De sorte que fomos sepultados com Ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela Glória do Pai, assim andemos também em novidade de vida.” Rom 6;4

Elas, pois, testificam que passamos a ser de Cristo. “... se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas passaram; eis que tudo se fez novo.” II Cor 5;17

Novidades em nós, que fomos transformados após o conhecimento da verdade. “... quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; vos renoveis no espírito da vossa mente; vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade.” Ef 4;22 a 24

sábado, 25 de maio de 2024

O fogo das provas

 

“Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.” Tg 1;13

Eventualmente elencamos coisas que O Todo Poderoso “não pode”, não por limitações ao Seu Poder; antes, por nuances da Sua Integridade, “... não pode negar a si mesmo.” II Tim 2;13 pelo choque excludente com Sua Santidade; “... não posso suportar iniquidade...” Is 1;13 “Tu És tão puro de olhos, que não podes ver o mal...” Hc 1;13

Inicialmente, vimos que Deus “não pode ser tentado pelo mal...” Coincidência ou não, quatro “impotências” do Todo Poderoso, todas em versos sob o número treze.

Para que o mal exerça tentação sobre alguém, é necessário que ele acene com algum bem, inda que, parcial. O pecado costuma envernizar-se com brilhos do prazer, de algum ganho, seja monetário, emocional, reputação, vingança, etc.

Para O Senhor Onisciente, que vê as coisas precisamente como são, não como tentam parecer, toda sorte de pecados, por artificiosos que sejam na sua apresentação, a Ele cheiram mal, incapazes de oferecer o menor atrativo. De ambos os lados a tentação hipotética acaba tolhida; O Santo não pode ser tentado pelo mal, pelo que Ele É; e pelo que o mal é, a despeito dos disfarces que use. “Não há criatura alguma encoberta diante Dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos Daquele com Quem temos de tratar.” Heb 4;13

Contudo, a coisa não é assim, diante de nós. “Cada um é tentado, quando atraído e engodado pela própria concupiscência.” Tg 1;14

Reflexo do concurso da natureza carnal, e sua inclinação rebelde, desde a queda; “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem pode ser.” Rom 8;7 Aquilo que parece aprazível ao nosso instinto, acaba despertando a cobiça em nós. Essa atua em consórcio com a tentação, colocando a prova, nossa obediência.

“Bem-aventurado o homem que sofre a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que O amam.” Tg 1;12 Há uma diferença diametral entre cair em tentação, e sofrer à tentação.

Se, caio, sucumbo aos seus apelos e peco; se, sofro, disciplino-me, mediante submissão ao Espírito, fazendo a escolha meritória, como a que, ao seu tempo fez Moisés, num contexto mais abrangente; “... recusou ser chamado filho da filha de Faraó, escolhendo antes, ser maltratado com o povo de Deus, que, por um pouco de tempo ter o gozo do pecado;” Heb 11;24 e 25

Isso é o que há de mais fútil na tentação; superestima o usufruto de um deleite que dura “... um pouco de tempo...” colocando a perder, uma comunhão eterna.

Quando Paulo ensina que, sobre o Único Fundamento aceitável a Deus, Jesus Cristo, devemos edificar nossas vidas, que serão provadas pelo fogo, Ver I Cor 3;11 a 13, refere-se às tentações, que com suas ardentes chamas, colocarão a prova, nossa devoção ao Senhor.

“Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis; antes, com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.” I Cor 10;13

Lembro do tempo que eu lia gibis; as tentações eram figuradas como, um capetinha sobre o ombro esquerdo acoroçoando para o mal; resistido por um anjinho no ombro direito, das personagens, cujo conselho era oposto. “Mutatis mutandis”, é isso mesmo. A “voz” da tentação acenando com as “vantagens” de pecar, do outro lado, a consciência, advertindo das consequências de cairmos no erro.

Se, como vimos no início, “Deus não pode negar a Si mesmo;” no nosso caso, se não negarmos nossas mais instantes inclinações, andando em espírito, não poderemos ser servos Dele. A Graça de Cristo só incide sobre os que se submetem em obediência “... nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.” Rom 8;1

Não importa quão fervorosas nossas profissões de fé, sinceras; cada tentação é uma oportunidade de evidenciarmos nossa fé, mediante obras correspondentes; podemos glorificar a Deus pela obediência, ou, capitular ao pecado, rendendo-nos a ele, malgrado, seu cheiro de morte. “Não sabeis que a quem vos apresentardes por servos para obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis; do pecado para morte, ou da obediência para justiça?” Rom 6;16

Dizermos que somos “sal da terra e luz do mundo”, é apenas envergarmos um rótulo; agir conforme, mesmo ante tentações, é que evidenciará a virtude de Cristo em nós; “Assim resplandeça vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem ao vosso Pai, que está nos Céus.” Mat 5;16

O pó e a Rocha



“Porque a sua rocha não é como a nossa Rocha, sendo até nossos inimigos, juízes disto.” Dt 32;31

“Tirou-me dum lago horrível, dum charco de lodo, pôs meus pés sobre uma rocha, firmou meus passos.” Sal 40;2

“Todo aquele, pois, que escuta estas Minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha;” Mat 7;24

Sempre “Rocha” como metáfora para Deus, Sua Imutabilidade, e a fidelidade dos Seus preceitos. Em Deus, “... não há mudança nem sombra de variação.” Tg 1;17

A Epístola aos Hebreus pontua: “Jesus Cristo É o Mesmo; ontem, hoje e eternamente.” Heb 13;8

Por outro lado, embora tenha sido criado à Imagem e Semelhança do Eterno, o que implica, ser capaz de preservar os valores imutáveis, essa capacidade foi sendo diluída ao curso do tempo, de modo que, o homem de hoje tornou-se um simulacro distante, do ser, que, um dia foi criado.

Para Nabucodonosor, em seu célebre sonho, o homem foi figurado numa estátua que, ao longo dos anos “progredia” do ouro à prata, da prata ao bronze; desse ao ferro; finalmente, ferro mesclado ao barro. Assim, num “darwinismo” ao avesso, o homem cresce para baixo.

O sentimentalismo doentio, no qual o ser humano muda, a cada nova circunstância, seja ditosa, seja adversa, deu azo a apreços como o do filósofo Ortega Y Gasset: “O homem, é o homem e suas circunstâncias.” Algo que muda, quando as coisas ao redor, mudam.

Embora haja muito de verdade no dito do pensador espanhol, o propósito Divino é que nos mantenhamos firmes Nele, a despeito do que acontece; “Quem há entre vós que tema ao Senhor e ouça a voz do seu servo? Quando andar em trevas, não tiver luz nenhuma, confie no Nome do Senhor, firme-se sobre seu Deus.” Is 50;10

Davi versou sobre as qualidades necessárias do cidadão dos Céus: “... aquele que jura com dano seu, contudo, não muda.” Sal 15;4

Alguém figurou a celeridade com que as coisas mudam no sistema atual, chamando-o de “mundo líquido.” Todo líquido tende a correr para os lugares mais baixos, nada de auspicioso tem surgido nas velozes mudanças humanas; antes, no prisma dos valores, todas têm se mostrado deletérias.

Quando alguém mais escrupuloso protesta contra uma mudança dessas, que abdica de valores antigos, alguns incautos observam: “Os tempos são outros.” Os tempos seguem como sempre; os dias têm 24 horas; as semanas, sete dias; os anos, 365... os humanos são outros, muito piores que os de antanho.

Nos dias de Jeremias, o profeta já foi chamado a falar com alguns que andavam “adiante do seu tempo”: “Assim diz o Senhor: Ponde-vos nos caminhos, e vede, perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; achareis descanso para vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos.” Jr 6;16

Mesmo para muitos que se declaram cristãos, a imutabilidade Divina, e a fidelidade da Sua Palavra, não bastam. Invés de descansarem naquilo que está escrito, como algo sólido que no devido tempo se cumprirá, muitos saem em busca de “profetas” que “revelam” particularmente que “Deus tem para eles”.

Bem sei que Deus É Vivo e atuante; segue falando quando lhe apraz; não se trata de ser refratário aos dons do Espírito Santo, pois; mas, de ser cauteloso com particularismos doentios, de gente que não se firma no perene, saindo em busca de algo espúrio.

Em geral, esse “novo” visa saciar ao velho hábito de querer ser agradado invés de ensinado, corrigido. “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme suas próprias concupiscências; desviarão ouvidos da verdade, voltando às fábulas.” II Tim 4;3 e 4

A comichão por mudanças, chegou a tais “alturas” que muitos já falam abertamente em reescrever À Palavra de Deus; editá-la “atualizando-a” uma vez que estaria defasada em face ao mundo moderno. Vulgarmente se chama, “o poste mijar no cachorro”, a imperfeição querendo mudar o que não carece, recusando-se a ser corrigida.

Como o homem moderno tem aversão à Palavra de Deus, e uma sede interna denuncia que, foi criado com um vazio que só Deus preencheria, avesso a “pagar o preço” renunciando prazeres rasos, pretende “converter” Deus, de modo que Sua Palavra, diga que ele deseja ouvir. O pó pretendendo alterar a Rocha.

Sabedor que o homem sozinho não pode “voltar para casa”, aos que ouvem a Cristo, O Salvador, Ele “empodera”, de modo a que vençam tendências mundanas, nas quais sempre viveram, e possam, doravante, agir como Filhos de Deus. “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no Seu Nome;” Jo 1;12

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Como vemos


Deparei com a frase: “Não vemos as coisas como elas são; as vemos, como nós somos.” E resolvi pensar a respeito. Será que, invés de sujeitos ímpares, racionais, inteligentes, somos mera extensão da paisagem?

Que uma pessoa tende a projetar sobre outra, seus apreços, sejam bons, sejam maus, faz sentido. Quanto mais honesta uma alma, mais chances terá de ser enganada, por presumir presentes nos elementos de sua interação, os mesmos valores que encontra em si.

Por outro lado, quanto mais vil, mas torpe, indigno de confiança alguém for, mais desconfiado; dado, saber por experiência própria, que não se pode confiar em qualquer um.

Que essa nuance empírica, tende a pincelar traços em nossas almas, parece indiscutível.

Entretanto, se levarmos a ideia às últimas consequências, descobriremos, fatalmente, que ela não foi feita para ir tão longe assim.

A Bíblia relata a saga de Ló, que, vivendo numa sociedade semelhante à atual, Sodoma, esteve para aquele habitat, como o cisne, no lago dos patos. Tornou-se o “patinho feio”, pela não conformidade de traços, com os habitantes; “Porque este justo, habitando entre eles, afligia todos os dias sua alma justa, pelo que via e ouvia sobre suas obras injustas.” II Ped 2;8 Viu aos sodomitas como eles eram; não, como ele era. Ló era justo; aqueles, injustos.

Logo, nem sempre vemos as coisas como somos. A capacidade racional dada ao homem, permite que ele interprete, mesmo linguagens não expressas; entrelinhas, mensagens tácitas, linguagem corporal; é capaz de uma leitura sagaz do que observa, a despeito de concordar com o que vê, ou não. Foi feito um observador autônomo, não, necessariamente, uma amálgama com o ambiente.

Além disso, também não podemos levar às últimas consequências o “diga-me com quem andas, e te direi quem és.” Se, “andar” significar estritamente, identidade de gostos e valores, sim; porém, situações especiais nos forçam a andar ao lado de qualquer um, discordando pontualmente, dele; até mesmo, ignorando quais valores defende, em quais coisas acredita.

Se, na confusão de línguas em Babel, cada um, por razões óbvias, buscou andar com aquele que falava o mesmo idioma, separando-se dos demais, nas questões morais, espirituais, comportamentais, nem sempre é assim. Um pleito comum, dependendo da relevância dele, pode colocar nas ruas uma massa, em defesa do mesmo. Essa é um mosaico de “eus” totalmente distintos, que, sem maiores traços semelhantes, com apenas um interesse confluente, andam juntos, por determinado tempo.

Se, cada um visse as coisas rigorosamente como ele é, forçosa seria a conclusão que todos são obras acabadas. O crescimento seria impensável. Nossas limitações, tanto empíricas, quanto racionais, fatalmente deixam vasto espaço para um vir a ser. Digo, mostram que precisamos crescer, melhorar; se somos algo, esse algo é um somatório de imperfeições, de lapsos, que precisam ser supridos. Mais correto seria dizer que estamos, nesse ou naquele estágio, que, presumir que somos.

Então, voltando à projeção de valores, creio que vemos às coisas, certamente sob influência do “mirante” no qual estamos. Não significa que ficaremos sempre ali; antes, temos possibilidade de andar, subir; ampliando assim, o campo da visão, lograremos lonjuras maiores.

Cada um vê as coisas com a luz que possui. No que tange a Deus, porque a Luz Dele evidencia nossas imperfeições, a maioria tende a se manter distante.

Afinal, a vaidade do homem natural tolhe que admita ser visto como realmente é; mesmo fazendo todas as coisas do seu desastrado jeito, deseja a aprovação que só é possível agindo do jeito de Deus. “Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, não vem para a luz, para que suas obras não sejam reprovadas.” Jo 3;20 O ensino é: “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Rom 12;2

Saímos, pois, da esfera meramente intelectual, o que podemos ver, para a volitiva; como desejamos ser vistos. Porque a vontade costuma suplantar a verdade; nem sempre, o que vemos logra melhorar o que somos. Tendemos a escolher nossa vontade em detrimento da Divina; “Porquanto, tendo conhecido a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças...” Rom 1;21

Se vejo “mal lavadas” as roupas brancas da vizinha, porque minha vidraça está suja, isso é um derivado do hábito fugaz, de negar minhas imperfeições. 

Quem se deixa purificar pela regeneração da Palavra de Deus, como o cego curado em dois tempos, por Jesus, primeiro viu o propósito ao nosso respeito, dar frutos; “Vejo os homens... como árvores que andam. Depois disto, tornou a por-lhe as mãos sobre os olhos, e o fez olhar para cima: ele ficou restaurado, e viu todos, claramente.” Mc 8;24 e 25

Fora do Reino



“Ficarão de fora os cães, feiticeiros, os que se prostituem, homicidas, idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira.” Apoc 22;15

Não é uma lista exaustiva. Alguns pecados foram postos em relevo, entre eles, a mentira.

Está na moda o combate às “Fake News”; a vulgar, mentira. Quer dizer que o Governo está certo? Sim e não.

O mérito procede, a mentira é uma coisa má; o método da proibição pela força, também é; por tolher à liberdade de expressão que é um bem inegociável, onde os direitos humanos forem respeitados. Assim, estariam usando um erro para “consertar” outro.

Além disso, mentira e verdade dever ser indicadas pela força dos fatos, não pela voz de quem falar mais alto; tampouco, pelo interesse que quem pretender o controle, em favor de suas preferências particulares.

Desde sempre, patifes que detinham o poder caçaram desafetos, de maneira bem sórdida; sempre ocultando-se atrás de algum escudo “nobre”. Quando Lutero defendeu que a salvação seria pela fé, não pelas obras, ou, pelas indulgências que prelados católicos vendiam, causou alvoroço. De onde o sujeito tirara tais ideias? Da Bíblia. “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie;” Ef 2;8 e 9 “O justo viverá da fé...” Heb 10;39 etc.

Isso despertou o furor do Paulo Pimenta da época. Fake News, heresia!!

Embora, o pregador queria apenas ensinar a verdade ao povo, bradavam em defesa da “ortodoxia” contra a “heresia”. Os tiranos sempre precisam vestes emprestadas.

Antes, John Wycliffe pregara coisas semelhantes, foi precursor da Reforma. “A verdadeira autoridade emana da Bíblia, que contém o suficiente para governar o mundo” atreveu-se a dizer o “herege”. Esposava que, A Palavra de Deus deveria estar ao alcance de todos, em língua vulgar, não apenas para a nobreza, em latim.

Defensores do elitismo religioso vigente acusavam: “A joia da nobreza virou brinquedo de leigos”; depreciando a tradução de Wycliffe para a língua inglesa das Escrituras. Entre muitas lutas e perseguições, fez isso, para desconforto do clero; que, não o tendo queimado vivo, como era seu costume, anos mais tarde “reparou seu erro”; além de queimar os escritos, desenterrou e incinerou solenemente, os ossos do pregador.

Uns tempos depois, William Tindale retomou a empresa de Wycliffe, desta vez, traduzindo do Grego e do Hebraico, não do Latim, como fizera aquele. Influenciado pelos escritos de Erasmo de Roterdã, e Lutero, que traduzira a Palavra de Deus para o alemão. Dessa vez, o clero não cometeu o mesmo “erro”; queimou o “herege” ainda vivo, como fizera com John Huss, para “exemplo” daqueles que achassem que o povo poderia ter acesso à Palavra de Deus.

A Palavra não foi dada para privilégio de poucos; antes, ela mesma ordena que, seja pregada a todos. O rei Artaxerxes, falando ao sacerdote Esdras, recomendou que colocasse em autoridade, gente que conhecesse a Lei de Deus. “... nomeia magistrados e juízes, que julguem todo o povo que está dalém do rio, os que sabem as Leis do teu Deus; ao que não as sabe, ensinarás.” Ed 7;25

O hábito de defender privilégios, mascarando-os de defesa de valores persiste, nada de novo debaixo do sol.

Os que vendem a alma ao diabo, usam de todos os “argumentos”, mesmo opostos, se necessário, para saciedade da sua sede de poder. “Fora da Igreja Católica não há salvação”, berravam os “proprietários” de Deus. Para desacreditar o esforço dos reformadores. Hoje, o ecumenismo considera “válidas” todas as crenças, desde que se aninhem juntas à sombra do “Papa”.

Não se trata, de zelo pela verdade; antes, pelos interesses mesquinhos.

O combate à mentira é muito salutar; deve habitar em cada um de nós. Como convém tirar a trave de nosso olho, antes de ajudar o semelhante, precisamos combater a mentira em nossas próprias falas; para tanto, Deus nos capacitou, colocando um aferidor em nossas consciências, que silencia, à verdade, e brada seu repúdio à menor sombra de mentira.

A balela para consumo externo, dos que dizem combater o falso no exato momento em que o estão produzindo, não convence nem eles mesmos. Certamente suas consciências lhes dizem poucas e boas, mostrando os patifes que são.

Quem ama à verdade, pratica a mesma, por questão de saúde espiritual e psíquica. Não há alvos exteriores prioritários. Em geral, embora as pessoas costumem bordar flores no pano da sinceridade, o homem veraz causa estragos quando fala; a vida social se dá melhor com hipócritas, mentirosos.

Os que zelam por valores não priorizam convivência; antes, se amoldam à verdade; “aos seus olhos o réprobo é desprezado; mas honram aos que temem ao Senhor;” Sal 15;4